Marina sentou no banco do passageiro da SUV de seu marido. O carro tinha pouquíssimos anos de uso, ainda cheirava a novo devido ao cuidado de Cláudio, e ele já pensava em trocar por uma BMW igual à do chefe. Um dos outros sócios do escritório estava para atualizar seu modelo e o veículo combinava melhor com seu posto de recém promovido. Precisava mostrar que, agora, estava no mesmo patamar dos outros, finalmente. Ela avaliou o carro com atenção, pensando se trocaria o seu combalido Civic, que a acompanhava desde antes de abrir a clínica. Era um excelente carro, mas a CR-V era mais alta, mais moderna, tinha mais espaço… Se o marido achava que precisava de um carro novo (porém usado) para impressionar os clientes e mostrar a escalada no patamar, ela podia ficar com aquele.
Estavam atrasados para o jantar de comemoração com os demais colegas de escalão, mas a culpa era de Cláudio, em sua demora para escolher o conjunto ideal de terno-camisa-gravata. Ela se divertia, comparando-o com uma princesa se arrumando. Ele estava animado e falante mesmo depois de ter voltado para casa duas vezes para conferir se não havia esquecido nada. Finalmente deram a partida e, enquanto o homem relatava animadamente sobre este caso ou aquele cliente, Marina prestava atenção nos barulhos do motor, gentileza da suspensão e estado geral dos acabamentos internos, avaliando com olhos e ouvidos de comprador.
Abriu o porta-luvas despretensiosamente, não esperando encontrar muito ali. O manual do carro e uma flanela brilharam com a luz interna do compartimento, um ou outro pedaço de papel, provavelmente notas fiscais, e… um batom? Marina pegou o objeto e olhou desconfiada para Cláudio, que não se deu conta de que algo havia mudado no clima dentro do interior do veículo. A mulher ficou estupefata e considerou suas possibilidades.
Sim, fazia sentido que Cláudio estivesse tendo um caso. Eles já passavam dos quarenta e é bem comum que crises aconteçam nesses momentos. Ao menos, é o que dita o senso comum, especialmente para homens. Trocar o utilitário por um carro mais esportivo? Estava na lista. O retorno com afinco à academia? Também. Um caso extraconjugal completaria a trinca. Ou a academia teria sido motivada pela amante?
As filhas estavam, todas as três, em estágios diferentes da adolescência, o que enlouquecia todo mundo um pouco. Marina escolhera ampliar sua disponibilidade na clínica, ao invés de diminuir, para perder menos a paciência com as brigas entre elas dentro de casa. Quando estava em casa, o tempo era despendido mais às crias, apartando, deliberando e aconselhando, que ao marido. Ele não parecia reclamar e, quando estavam juntos, em horários arranjados e pré-determinados, ele seguia sendo o cara gentil e afetuoso que sempre fora ao longo do casamento. As coisas haviam esfriado, claro, mas não tanto assim. Ela não estava insatisfeita, para início de conversa, e achava que isso se devia ao excesso de obrigações da vida adulta: a casa, as filhas, os funcionários, a clínica, o escritório, os clientes. Mas como ele arrumara tempo para ter uma amante? Será que a mulher estaria no jantar?
Marina guardou discretamente o batom em sua bolsa, junto com suas perguntas e conflitos. Poderia fazer um escândalo ali mesmo, claro, mas barracos nunca foram do seu feitio. Áries de menos no seu mapa astral, diria sua melhor amiga. Escorpião demais, lembraria ela também, se Marina declarasse que seu primeiro instinto era o de se vingar. Mas o que iria fazer? Tacar fogo nos preciosos ternos? Arrumar um amante também? E ela ia querer outro homem pra dar trabalho? Talvez a mulher estivesse nesse jantar. Era tão clichê que a amante estivesse no ambiente de trabalho que valia apostar nisso. Decidiu esperar para ver se a mulher apareceria e quem era ela.
— Você veio calada o caminho inteiro, meu bem. Tá tudo bem? Cansou da minha tagarelice? Você parecia mais animada antes da gente sair. — Cláudio indagou, finalmente se tocando que a esposa mal abrira a boca o caminho inteiro.
— Tá tudo bem, querido, só comecei a sentir o cansaço da semana. Esse scarpin não ajuda também.
— Mas você está belíssima! Vou parar na porta, assim você não precisa andar muito, depois procuro uma vaga.
— Por quê você não entrega ao manobrista? É uma ocasião especial e você, o homenageado da noite, já está atrasado.
— Eu sempre acho que esses moleques vão catucar o carro inteiro ou fazer alguma maluquice…
— Que história, Cláudio! — Marina riu da paranoia irônica do marido. Não havia nada para estranhos “catucarem” no carro dele, mas definitivamente havia algo incriminador, que ele nem desconfiava, pelo visto. — Seu carro parece que saiu da fábrica ontem, não tem nem o enfeite de retrovisor que sua filha mais nova te deu antes de virar uma chata!
Cláudio riu de volta! A caçula havia acabado de virar “aborrecente”, mas acabava sendo mais engraçada que irritante. Afinal, ambos já haviam passado por duas rodadas de hecatombes hormonais. Eram diferentes, claro, mas lá no fundo eram iguaizinhas. Marina percebeu que, mesmo com a traição, amava o marido com seu bom humor fácil, e amava o pai de suas filhas. Ele decidiu entregar o carro ao manobrista, só daquela vez. A prova de seu crime, sem que ele soubesse, nas mãos de sua juíza, júri e executora, e era a única coisa que valia a pena encontrar.
O maitre os levou para o reservado, onde uma grande mesa redonda iluminada por um candelabro de cristais os esperava, com outros três casais já sentados conversando entre si. Marina reconheceu os principais sócios da firma, sociedade da qual seu marido agora fazia parte, e suas respectivas esposas. Observou o batom de cada uma enquanto as cumprimentava. O fato de serem casadas e de regularem em idade com ela — ou até serem mais velhas — nada impedia. Os elogios e felicitações esperados foram trocados, a piadinha com o atraso foi feita e recomendações de vinho foram realizadas. Champanhe, claro, para celebrar! Mas só na sobremesa, uma das esposas lembrou. Vinho branco para agora, já que comeriam peixe. Seguiram a recomendação do sommelier e, em breve, entradas foram apresentadas e taças enchidas.
Assim que as formalidades permitiram, Marina pediu licença para ir ao toalete. Trancou a porta atrás de si e tirou o batom de dentro da bolsa. A capsula preta, com sua linha minimalista e as três letras da marca em prateado, reconhecível em qualquer lugar do mundo. No fundo, o nome da cor: Rebel. “Que irônico”, Marina pensou, “a dona do batom intitulado “rebelde” faz algo tão padrão quanto ter um caso com o advogado casado…”.
Abriu a tampa da cápsula e encontrou a maquiagem no finzinho, o tom de roxo cremoso claramente um preferido. Sentou-se no vaso sanitário, tentando lembrar se podia ser a cor de uma de suas filhas. Nenhuma tinha um MAC em sua coleção de maquiagens, pelo que lembrasse. A mais velha só queria saber de Fenty, a do meio só usava um batom se ele fosse preto e a mais nova preferia liptints. Tinha que ser da amante. E, se ela usava tanto a ponto de estar quase no fim, talvez o procurasse novamente. Mesmo que comprasse um novo, não abriria mão daquele. Marina entendia, tinha seu preferido também.
Motivada pelo álcool, decidiu agir na primeira ideia maluca que veio à cabeça. “Em que lugar do meu mapa astral Lídia colocaria a culpa disso? Sagitário no caralho à quatro? Tenho que arrumar um tempo pra ligar pra ela e contar essa história toda!” Marina seguiu, determinada pelo entretenimento que proveria à melhor amiga, com seu plano. Ao invés de dirigir-se à mesa, seguiu para o lado oposto, esperando encontrar um funcionário e um balcão.
Depois de pedir caneta, papel e direcionamento, escreveu um minúsculo bilhete, sob o olhar curioso de uma garçonete, dispôs o batom e a nota sobre a bancada e fotografou a peripécia para enviar para Lídia. Dobrou o papel, colocou-o dentro da tampa e fechou o batom. Voltou para a mesa, rindo, e Cláudio sorriu de volta, perguntando o que tinha acontecido. Um garçom esperava para puxar a cadeira para ela se sentar, mas ela pediu para o marido se levantar, para que eles tirassem uma foto no belo painel de madeira com delicadas avencas que decorava o ambiente, ignorando totalmente sua pergunta:
— Vamos registrar esse momento, querido! — ela disse, entregando o celular com a câmera já ativada para o garçom e pedindo que ele, por favor, fizesse uma foto dos dois. Cláudio assumiu que o riso fosse por conta da embriaguez e levantou-se conforme solicitado. A foto foi feita, um dos sêniores na mesa riu, era mesmo um dia a ser registrado, e pediu que o mesmo garçom os clicasse a todos. Com o rosto avermelhado do álcool, exigiu que Marina lhe enviasse aquela foto, iria emoldurar e lhes enviar de presente.
Aproveitando o momento, Marina garantiu:
— Vou enviar agora mesmo, antes que beba mais e esqueça!
Assim, garantiu o uso do celular na mesa sem ser questionada, enquanto a conversa continuava ao seu redor. Abriu a conversa com Lídia. Verificou nome e foto, para ter certeza que estava no canto certo. No meio da bebedeira, não queria correr o risco de encaminhar a fofoca para a pessoa errada. Encaminhou a primeira foto, com o batom e o bilhete que dizia: “Fala, Amante! Aqui é a Fiel. Me add”, com o seu número de telefone na sequência. Na legenda da foto, o recado: “Não posso falar agora, vamos nos ver amanhã”, seguida das fotos com o marido e colegas no restaurante. Enviou as fotos oficiais para o perfil do marido, desculpando-se com os convivas e declarando:
— Que coisa, não tenho o número de nenhum de vocês! Amanhã o Cláudio manda essas fotos, já enviei para ele.
Marina colocou o celular no modo avião e guardou-o. Sabia que a amiga lhe encheria de perguntas assim que visse a mensagem, mas não podia cair na tentação de respondê-la. O importante é que a informação fora passada e, se a amante tivesse bom humor e algum juízo (ou vontade de arrumar uma encrenca), ela responderia assim que encontrasse o batom. A noite transcorreu sem quaisquer outros incidentes interessantes. O batom foi reimplantado no porta-luvas da CR-V com tanta discrição quanto foi retirado. Agora, era só aguardar.
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vai ter continuação?