Carta da Megacorp
Quando a empresa faz um aparelho bom demais e resolve que o único jeito de lidar com isso é programar a autodestruição
Desimportante cliente,
Estamos cientes que você está conosco desde 2012 ou até antes, tendo em vista que continua usando o seu leitor de livros digitais tão antigo fielmente. Sabemos que bate o ponto na sua leitura quase todos os dias, a não ser quando passa uns três meses sem ler nada. Bom, nada digital, pelo menos.
Sabemos também que a maioria do que você lê não é um ebook que saiu da loja da nossa empresa, o que é uma pena. Assim, não podemos te oferecer a capa mais atualizada do seu livro, contendo o pôster do filme inspirado nele que vai inaugurar em breve nas telonas. Nem podemos alterar o conteúdo dele para ficar mais moderno e condizente com os novos tempos. Afinal, quem é que convida as amigas para assistir algo tão antigo quanto um programa de TV hoje em dia? Faz muito mais sentido convidar para ver um tiktok. A escolha também nos furta a oportunidade de curatoriar sua biblioteca e silenciosamente remover o acesso a certos livros que achamos inadequados de tempos em tempos. Agora, por exemplo, é um péssimo momento para as pessoas estarem lendo Orwell ou Huxley.
Sentimos imensamente, também, por oferecermos aparelhos tão duradouros. Quem diria que haveria celebração de quinze anos das pequenas máquinas? Que as quedas ocasionais causariam meras rachaduras, a serem cobertas com adesivos, colas coloridas ou glitter? E que a maior parte das pessoas acharia que oito gigabytes seriam armazenamento mais que o suficiente?
Sendo assim, estamos obrigando seu aparelho a receber essa carta, fazendo ele piscar e se desconfigurar para te forçar a sair da leitura e recebê-la. Informamos que, a partir de uma data a nossa escolha, seu leitor de livros digitais entrará numa contagem regressiva para a morte certa. Nós temos uma noção da data final, claro, mas não vamos te dizer, para podermos contar com sua ansiedade a nosso favor. A data do início da contagem estará disponível ao final desta missiva. Depois desse dia, daremos ainda menos suporte do que já damos para aparelhos mais antigos do que 2012.

É verdade que seu aparelho já não recebe atualizações tem uns bons anos, inclusive algumas que poderiam ter tornado sua vida melhor ou mais divertida. Espero que você nunca descubra um tal de KUAL e como ele pode fazer tudo o que nós nunca tivemos interesse em resolver. Veja bem, porque deveríamos nos importar? Não conseguimos interferir ou exibir publicidade no seu aparelho por conta da defasagem de hardware, teríamos que mexer muito num código que provavelmente está todo remendado e nenhum programador quer tocar por medo se se esfarelar. Além do mais, seu aparelho ainda é dessas velharias que se comunicam com o computador por cabo e transferem arquivos de lá para cá sem depender do nosso serviço de transferência e nossa nuvem.
Mas, a partir do início da contagem regressiva de final incerto, caso você precise restaurar seu aparelho para configurações de fábrica ou trocar a conta de usuário dele, garantimos que ele não vai mais ligar e você será o feliz possuidor de um belo, moderno e finíssimo tijolo. Que você nunca mais precise dar um hard reset no seu leitor. Estaremos aqui da outra ponta observando e torcendo por você.
Além disso, revogaremos a partir da mesma data seu direito de comprar livros na nossa loja e direcioná-los para este aparelho, bem como de criar contas novas utilizando-o como base. Mas não se preocupe, aqueles disponíveis na sua biblioteca, pelos quais você pagou pelo acesso supostamente vitalício, poderão ser acessados normalmente. Até que a gente decida que seu aparelho é velho demais para acessar nossa biblioteca digital, é claro. Espero que você tenha aproveitado para baixar os arquivos para seu computador naquele prazo que demos ano passado.
Claro que você não deveria saber que, com um aparelho tão antigo, feio, ralado e defasado, que já te acompanhou por tanto tempo, em tantos altos e baixos, estudos de prova, madrugadas insones e clubes do livro informais entre amigos, você pode baixar os livros digitais comprados para ele e, a partir dele, para o seu computador. Mas este é mais um dos motivos pelos quais seu leitor é um risco, entende? Onde fica o nosso controle?
No entanto, caro consumidor, não precisa se preocupar! Temos aqui um cupom de vinte porcento de desconto num aparelho novinho, novinho, cujo preço aumentou na loja tem cerca de duas semanas (logo depois daquela última promoção que fizemos pra nos desfazermos do modelo do ano passado em estoque, lembra? — mas não se preocupe, não mudou absolutamente nada no modelo deste ano!). E, assim que você comprar seu aparelho novo, te daremos um crédito de cem reais para gastar nos livros digitais que quiser!
Pessoalmente, aqui na empresa, achamos que é um ótimo negócio. Te damos um dinheiro falso, para te permitir adicionar a sua biblioteca uma posse falsa, que não passa de um acesso ao arquivo que nós podemos revogar quando nos for conveniente, e fica parecendo que somos muito legais!
Mas corre, hein? Que só vale até julho. Depois disso, babau.
E, neste aparelho novo, te daremos tudo o que você sempre quis! Luz que abaixa e aumenta, fica fria ou quente de acordo com sua vontade, a capa do livro que você está lendo estampada na tela de descanso (para todos saberem que você está lendo o mais novo pornô de fadas, adquirido com quase metade dos seus créditos na nossa loja), uma tela lisinha e um verso imaculado. Talvez não tão resistente quanto o antigo, claro. Como a gente vai sobreviver se passar duas décadas sem te vender um aparelho novo? Quem vai garantir o gagau dos acionistas?
E, principalmente, o cheirinho de novo, a ausência de vivência, a possibilidade de fazer o unboxing e exibir nos seus perfis, fazendo publicidade de graça pra gente com o recebidinho do próprio bolso! Além de zero lembranças daquelas madrugadas em claro ou da vez em que o leitor digital quase caiu na piscina — inclusive é de extrema importância você manter o novo aparelho longe da água. Não, não vai dar para ler o final daquele livro viciante enquanto toma banho. Não que a gente saiba. Não tem câmera no nosso aparelho. Ainda.
Por fim, te desejamos o melhor e aguardamos ver seu semblante sorridente enquanto passa o cartão digital no nosso aplicativo. Aí, sim, talvez tenhamos acesso à câmera, depende do que você aceitou na hora de nos instalar no seu celular. Por favor, evite pesquisar coisas como “fuga da cadeia digital”, isso não te levará para nenhum canto bom e vai estressar a nossa relação.
Que a sorte esteja sempre ao seu favor.
Atenciosamente,
A empresa de um trilhardário coitadinho que precisa dos seus trocados.
Recadíneos
Eu esqueci o post da semana! Rysos
O pior (ou melhor) é que eu tinha outras coisas escritas, aguardando só a revisão, mas eu fiquei tão revoltada com a cartinha de amor enviada pela Amazon para meu Kindle. Quase tudo citado é real em algum canto do mundo. Exceto a retirada de um livro de Huxley, mas eles realmente retiraram 1984 da biblioteca de um país, inclusive das bibliotecas dos usuários que compraram o ebook na loja da Amazon.
Estou vendo/lendo
Terminei Captive in the Underworld (Lianyu Lan) recentemente e achei um livro ok. É uma releitura hot da história de Hades e Perséfone, mas com um genderbender: Hades é uma mulher. No entanto, a primeira metade do livro é Hades agindo exatamente como sua versão masculina agiria, com total desrespeito pelo que Perséfone quer. Só continuei porque, pelo menos, é bem escrito e fiquei curiosa para ver as tentativas de fuga e as quebras de regulamentos de Perséfone. Quando Hades se toca que não tem o consentimento da esposa sequestrada e resolve que não vai fazer mais nada até receber um consentimento claro e explícito, as coisas melhoram muito! A exploração do Mundo Inferior é bem interessante. Apesar das cenas hot serem bem descritas, elas não são o que mais brilham no livro. (E acho que tem menos de 10).
Comecei a ler um livro de contos de Renata Corrêa, Vaca e Outras Moças de Família, e estou adorando! Não dá para dar muitos detalhes, porque são contos curtinhos (e estou só no terceiro).
Já disse que estou assistindo Por Você na Netflix? É um romance chinês que conta a história de uma mulher plebeia superforte que é obrigada a assumir a profissão do pai e se tornar açougueira para sustentar a irmã quando elas ficam órfãs e, logo no primeiro capitulo, resgata um marquês bonitinho da morte certa no gelo. Só que ela não sabe que ele é um nobre. Daí, se desenrolarão várias peripécias divertidas e fofinhas, além do romance entre os dois. Se passa na China pré-unificação, é um prato cheio para quem já assistiu Kingdom (Crunchyroll) e eu estou supondo que se passa no território de Wei, por conta do nome de um certo nobre, mas posso estar enganada.


