Uma amiga fez aniversário e fomos em trio ter um brunch em um restaurante belo e superfaturado no Centro Histórico, um desses lugares onde vaga, só em Zona Azul ou estacionamento privado. Cheguei primeiro, reservei logo duas horas, fui esperar minhas amigas. O papo obviamente vai além e preciso ir recarregar o parquímetro, infelizmente interrompendo a conversa e, provavelmente, causando um cliff-hanger.
“Ué, você não tem o aplicativo deles no celular, não?”, pergunta uma delas.
“Eu não, eles não estão pagando aluguel” e fui eu pagar o aluguel pelos centímetros de asfalto que estava ocupando por mais uma hora, o que me deu tempo para remoer minha piadinha e gestar uma nova indignação.
Acho um tanto falso isso de que ter todos os aplicativos do mundo no nosso celular é uma comodidade. Eles comem espaço que podia ser de foto do meu cachorro ou minha playlist de dezenove horas de reggaeton e ainda querem saber de um monte de coisas que não sei se tenho interesse que eles estejam sabendo.
A maior parte deles quer seus dados de GPS por padrão, inventam alguma razão para precisar do acesso às suas fotos e querem porque querem te mandar notificação. Incrível como todo mundo quer uma fração do nosso tempo! Em algum canto do cérebro primitivo, um divertidamente está se refestelando exclamando “Olha como eu sou importante!” com o tanto que a telinha pisca. Mas é tudo basicamente telemarketing digital, poluição da atmosfera emocional, porque as notificações tiveram significados de afetos reais em algum momento.
Eu tenho que pagar pela vaga “presencialmente”, indo a um totem (fiscalizado por um ser humano), inserindo meus dados e aproximando o cartão de crédito. Não é tão antigo, pelo menos, é do tempo dos astecas e não dos maias, quando pagávamos com moedinhas de vinte e cinco centavos ao profissional que anotava o tempo para colocarmos pendurado no retrovisor. É bem menos prático que apertar alguns pixels na tela do celular, mas não é como se eu precisasse da Zona Azul com frequência para justificar a ocupação do espaço.
Além disso, para ser cidadã, eu já preciso carregar “na palma da minha mão”, como dizia a publicidade, os aplicativos do governo, da justiça, do Detran, do SUS, do título eleitoral, do plano de saúde, do banco, da empresa da internet, da luz, da água e das redes sociais. Não, pera. Essas últimas não deviam ser obrigatórias.
Além disso, tem o aplicativo do supermercado, da academia, das entregas, do trabalho, dos Correios, da câmera fotográfica, do ar condicionado, uns três diferentes só de sistema do celular e eu ainda nem entrei nas compras e no entretenimento, porque também tenho aplicativos de registro das campanhas de jogo de tabuleiro, filmes, série, música… Afinal de contas, eu tenho o direito também de ser feliz com o meu aparelho que eu comprei com o meu dinheiro, mas parece que todo mundo se acha dono de um pedaço dele.
Incontáveis empresas e serviços que, para me oferecerem aquilo que elas se propõe a oferecer, precisam de um puxadinho de alguns quilo ou megabytes no não tão espaçoso território do meu celular. É verdade, alguns eu uso porque quero. O do Detran, por exemplo. Basta eu estar sempre com a carteira de motorista. Mas e se por um acaso eu estiver em algum canto que resolvi não levar bolsa, tenho apenas o celular, do nada viro motorista da rodada e mais do nada ainda sou parada numa blitz? Melhor prevenir do que remediar, né? E, pelo menos, é um serviço governamental gratuito que tem sua contrapartida analógica (nem um pouco gratuita). Eu poderia muito bem deixar o celular em casa e sair só com a carteira nessa situação. Como os olmecas.
Meu grande problema é que não basta ocuparem o espaço no meu aparelho, todos esses aplicativos estão a serviço de suas empresas com o grande objetivo de vender ainda mais coisas do que já vendem e capturar o que puderem para tornar a oferta ainda mais persuasiva: quem somos, que aplicativos usamos, onde estamos, com quem, qual nosso humor e nossa disposição hoje. Cada aplicaçãozinha que entra se torna um agente de pesquisa de consumidor e de publicidade e propaganda incansável, coletando tudo e nos notificando de cada nova forma de tentar nos persuadir a lhes entregar nosso tempo, dinheiro e atenção. Gastando o nosso pacote de Internet, claro.
Diante disso, não vai ter aplicativo de Zona Azul no meu celular. Nem qualquer outro que não seja absolutamente necessário (ou do meu interesse, aí se torna necessário). A não ser que queiram pagar aluguel, claro. Afinal, se o outdoor e a loja física precisam pagar pelo espaço que ocupam na rua, para fazer publicidade dentro da paz do meu lar pagamento deveria ser o mínimo. Deveriam também passar por um rigoroso escrutínio do Conselho Fernandal de Publicidade e Propaganda e obedecer às rígidas regras de segurança mental e emocional para operar sem problemas. E não adianta molhar a mão do fiscal. Ele é Leal e Bom e tem apenas uma Mestra.
O que faria com que praticamente nenhuma publicidade passasse pela minha vista, porque eu sou chata assim.
Uma vez que, infelizmente, não posso dobrar as grandes corporações à minha regulação e aos meus desígnios, nem cobrar aluguel, eu escolho não instalar nada pra ganhar cinco minutinhos a mais. Ou me privar de ter que sair no meio de um evento profissional para recarregar o parquímetro e ter um tempinho de respiro. Escolho também não autorizar nem uma vírgula além do necessário para o funcionamento dos apps que eu tenho, escolho que a grande maioria deles não me notifique por absolutamente nada e escolho manter ativa a melhor função do celular, que desativa e suspende qualquer aplicação que eu não tenha usado nos últimos três meses. Escolho também manter o celular eternamente no silencioso e com a função de vibrar desativado, é o mais perto que consigo chegar da retomada do que se pensava sobre ele no início do século: o meu celular é para a minha conveniência, não a dos outros.

Essa semana não tem muitos recadíneos. Quase não ia ter texto, mas achei esse incompleto no meu arquivo e resolvi que ainda tinha revolta o suficiente para concluir. Ando ensaiando uma série forrozeira, mas sinto o músculo da escrita meio embotado, sem saber muito bem por onde começar. Mas acho que isso se deve ao processo de recuperação.
Semana passada tive uma crisezinha estomacal de leve. Ou não tão de leve assim, já que me levou a um pit-stop hospitalar. O que importa é que a medicação fez efeito e tô bem. Ou, ao menos, me recuperando. E de recesso do café, provavelmente é por isso que não sei mais escrever. Sobre o que causou o surto, o mesmo de sempre, Pinky: estresse. E eu nem tô tentando dominar o mundo, só sobreviver a ele. Talvez este seja o problema…
Mas isso não importa, o que importa é que graças a essas maravilhosas companhias de lanchinho, tivemos texto essa semana! Obrigada, meus amores! O parabéns pelo aniversário não cabe mais, já que a comemoração foi mês passado e a aniversariante nem gosta de aniversariar.
Agora bora ficar boa, retomar a rotina, que tem São João rolando pra gente ser um tiquinho mais feliz e dançar forró até o pé cair!
Depois de muito rodar sem saber o que ler, engatei, finalmente, na leitura de The Adversary, de Erin M. Evans, continuando minha aventura literária por Forgotten Healms. É o terceiro livro da série Brimstone Angels e também de The Sundering, mas essa série eu não li. Comecei a ler Brimstone Angels para me inteirar sobre os tieflings em D&D, porque fora as imagens, eu tinha muito pouca referência e gosto de dar panos de fundo mais complexos para minhas personagens, para sentir um pouco melhor quem são, de onde vêm e o que querem nas mesas de RPG. Comecei a ler a série sem muita expectativa, mas Evans é uma ótima escritora de fantasia e sigo gostando de todos os livros dela que li!
Meu amigo Lucas Freitas lançou seu livro de contos, Música da Meia-Noite (que já está na minha lista de leitura) e deixou de brinde um de seus contos na Curadoria da Meia-Noite para comemorar com os leitores! Linha Direta é um conto interessantíssimo envolvendo uma tecnologia arcaica para nossos padrões: um orelhão público. E a pracinha de uma cidade de interior. Gostei demais do conto e me trouxe uma série de lembranças oníricas da infância. Vão lá ler e se deixar envolver pelo mistério!
Estou ouvindo avidamente o novo podcast do Chico Felitti, A Síndica, que vai contar a história do governo de 42 anos da chamada Doutora Graça no Condomínio JK, em Belo Horizonte. É jornalismo investigativo para ouvir de primeira qualidade! Chico não sai de casa pra fazer podcast ruim (ainda bem). O podcast está disponível em todas as plataformas, mas o link aqui vai só pro YouTube, porque estou com preguiça. Vou deixar o trailer aqui embaixo:
Recentemente também ouvi o episódio A fantástica fábrica de algoritmos da Meta, da Rádio Escafandro, e acho que é de audição obrigatória para todo mundo que usa redes sociais e, principalmente, para quem depende delas. A narrativa mostra também a vida dos profissionais que vão trabalhar para esta e outras Big Techs, com todas as armadilhas do capitalismo que fazem tal emprego ser pesadelo travestido de sonho. Também está disponível em todas as plataformas de áudio, mas estou linkando apenas o Youtube aqui:
Para mais textos e crônicas, estou escrevendo quinzenalmente no No Fluxo, boletim informativo da Casa Fluxo, falando de dança, corpo, processo criativo, feminismo e temas semelhantes.
Estarei, em breve, matraqueando em um podcast, ainda sem data de estreia, mas informo quando tiver.
Temos um Instagram, mas ele é apenas figurativo, só para dizer que o blog existe: @desloucada.blog
Tu Já Viu Isso? - canal dedicado a viagens no Brasil e América do Sul. @tjviuisso no YouTube e Instagram
Curadoria da Meia-Noite - boletim informativo da Galeria da Meia-Noite, projeto de escrita de Lucas Freitas, com resenhas de produções diversas voltadas ao terror.











