No começo, era o verbo.
Mas frase não deveria começar com um verbo. (Apesar de que isso acontece o tempo todo no jornalismo.)
E, na verdade mesmo, no começo era uma página em branco. Um cursor piscando na tela. Convidativo. Ameaçador. Provocando e zombando, como quem duvida da capacidade de ordenar palavras em frases e transmitir sentido em uma mensagem relevante.
(Olha aí, a frase anterior começou com um verbo.)
O pé balança impaciente, nervoso. O lápis bate nas folhas sobre a mesa, que abafam um pouco o tec tec tec angustiante de uma ideia que não encontra saída.
Os pensamentos passeiam, embaralham-se, sabem quem são, mas não encontram palavras correspondentes.
Sabem quem são? Mesmo?
De repente, todo o direcionamento muda. Já não é mais naquela ideia inexprimível. Ou na dificuldade de pari-la. É no passarinho que canta do lado da janela, o bem-te-vi preguiçoso que faz só “vi”. É no quase inaudível tique-taque do relógio de pulso, quase um anacronismo diante dos celulares e relógios digitais que só faltam fazer um chá e perguntar se prefere açúcar, creme ou puro. O chá! A chaleira que apita na cozinha. O cursor piscante é esquecido. As folhas espalham-se. O chá.
Com ou sem caneca de chá nas mãos, aquecendo os dedos gelados pelo próprio nervosismo, a escrita não parece vir. Não parece render. Parece-lhe um universo impossível de exprimir.
E qual era a ideia mesmo?
Não podia começar com um verbo. Ou poderia?
“Choveu.” É um verbo. É uma frase completa. Cheia de significado em si própria. É uma história. Então por que não começar com um verbo?
Mas não era isso. Não era uma história começada em um verbo. Nem concluída com uma só palavra.
A ideia se perdeu. As próprias definições de ideia se esconderam. O que colocar no papel ao invés disso? O que transcrever para a tela? Será mesmo que escrever à mão é mais fácil?
Levantou-se. Deixou a caneca na cozinha. Pensou em onde ouviu isso de que não pode começar frase com verbo. Saiu porta afora, mastigando esse detalhezinho, como se fizesse toda a diferença. Como se fosse por isso que não escrevia há meses.
Não tinha chovido.

Este texto foi escrito originalmente em 10 de junho de 2016 e publicado no Medium, mas eu gosto dele, então está aqui de volta. Na época da publicação original, rolou o seguinte diálogo com um leitor beta:
— Gostei do texto, mas notei que não dá pra perceber o gênero do eu-lírico. Você devia corrigir isso aí.
— Não tem o que corrigir, foi proposital.
— Como assim?!
— A ideia é manter o gênero neutro mesmo. Deu um trabalho desgraçado. Já notou como é fácil escrever sem fazer alusão ao gênero em inglês, mas quase impossível em português?
— Ah…
— Aí eu quis tentar, pra ver se conseguia. E consegui. Não tem nada errado não.
Silêncio constrangedor (da parte dele, eu estava muito orgulhosa com o sucesso da minha empreitada).




Que texto gostoso de ler ❤️ Acho que foi uma das melhores representações do processo criativo que já vi em muito tempo XD E o detalhe de ter conseguido manter o texto neutro foi simplesmente sensacional ˆˆ Quero mais \o/