Se você vai fazer um feitiço de Internet, saiba que vai precisar de duas coisas de certeza: o nome completo e a data de nascimento do destinatário do seu feitiço. Na minha opinião pessoal, você só precisa saber exatamente para quê e para quem aquele trabalho está sendo executado, afinal a magia acontece muito mais internamente do que externamente. A análise neurocientífica da bruxaria e feitiçaria vai ter que ficar para outro dia e sugiro que tome a opinião de uma bruxa ateia do caos com um temperinho (with a grain of salt, como diriam os gringos). Afinal, se você não está temperando suas magias com seu jeitinho e visão de mundo particular, está deixando a desejar no seu feitiço.
Eu AMO um feitiço de Internet, posso passar horas vendo vídeos de fofocas de velas, mesmo que eu não acredite em tudo. Sempre gostei das sessões de simpatias nas revistas femininas, que eu folheava desde muito nova. Escondida, diga-se de passagem, porque não era coisa para minha idade e elas geralmente estavam onde pensava-se fora do alcance de crianças. E que criança vai se interessar por revistas de adulto quando há gibis, jogos de futebol e queimada e amiguinhos para correr junto, não é mesmo? Exceto que eu odiava futebol e queimada e ardia de curiosidade com qualquer coisa escrita. Se está escondida, então, aí é que é interessante mesmo. Então encontrei simpatias diversas para todos os motivos que me deixaram entretida e intrigada. O que seria, por exemplo, um espelho virgem? Um no qual ninguém nunca se admirou? Mas ele não teria refletivo ninguém no seu processo de fabricação? Terá sido coberto e embalado com o cuidado de que ninguém nunca se olhasse nos olhos antes disso?
Independente das divagações sobre espelhos virgens que claramente me acompanha por décadas, algo que sempre encontrei com frequência foi a necessidade de nomes completos e datas de nascimento para simpatias direcionadas a outros. Se possível um fio de cabelo, um pedaço de unha... ou seja, tem fundamento.








As revistas femininas estão aí pelo menos há um século, tanto ajudando a regrar o comportamento feminino quanto permitindo um espaço exclusivo, que não recebia atenção masculina, para discussão e avanço de certos tópicos, a depender da linha do periódico. Uma pesquisa rápida me mostrou que a primeira edição do Jornal das Senhoras aconteceu em 1852 e a da Revista Feminina, em 1915, ambas publicações nacionais. A simpatia é algo que faz parte da constituição da cultura brasileira. A Wicca foi fundada apenas na década de 1950 e muita gente aceita seus preceitos e dogmas como fundamento (não que todo o ensinamento deles seja vazio de ancoragem ancestral). Portanto, se a Lei Tríplice wiccana é considerada um fundamento, as simpatias também devem ser.
Vejo a data de nascimento mais presente nos feitiços tupiniquins, as gringas se dão por satisfeitas com o nome completo, geralmente. Aqui, a gente quer ter a certeza que o oficial de justiça místico vai encontrar o endereço correto e, na petição, botamos tudo o que adquirimos de informação. Se tiver o CPF e o número do sapato, estamos colocando. E, algo que começou a aparecer massivamente na última semana seja na gringa seja por aqui, a @ do destinatário. Justo, faz sentido, afinal o enviado espiritual só se beneficia da quantidade máxima de formas possível de encontrar o destinatário.
Magia não nasceu do nada, no entanto. Houve uma época que fazer um chá de camomila e valeriana para dormir era bruxaria. Hoje é a receita da vovó e a maior parte de nós vai apelar para um fármaco de cara. Sem tempo para soluções lentas e analógicas, irmão. Sendo que não haveria fármaco nenhum sem que as primeiras pessoas notassem os usos de plantas e minerais ao seu redor e os registrassem. Muito antes da escrita, esses registros eram passados de forma oral, sendo transformados a cada transmissão, envolvendo conhecimento prático em linguagem lúdica e misteriosa. O que me leva a crer que, seja lá qual justiça ou bênção divina precisasse ser entregue por mãos humanas, quem recebia o pedido sabia que precisaria encontrar o merecedor. Se você vai acender sua vela e fazer sua oração, seu potinho da vingança ou sua bomba de glitter na gaveta de cuecas com suas próprias mãos, já sabe a cara do sujeito (ou da sujeita, vai saber), o endereço e a que momento o alvo está mais vulnerável. Se for entregar amor, também. Mas se for encomendar isso de terceiros, quanto mais detalhes, melhor, não? Ou o capanga do mafioso quebra o joelho do filhodaputa errado. (Favor não contratar mafiosos nem quebrar joelhos com as próprias mãos, por sua atenção obrigada.)
Por motivos como esses, bruxas, rebeldes, devedores de agiota, dentre outros cujas vulnerabilidades podem custar suas vidas procuram manter suas informações no sigilo. Uma prática, na verdade, que deveria se aplicar a todos nós. Não é de bom tom, por exemplo, colocar nome completo, endereço, telefone e CPF estampado para todo mundo ver no seu perfil. Para a dona da plataforma, é impossível não enviarmos essas e muitas outras informações e a gente confia que a empresa não vai emitir um cartão de crédito no nosso nome ou qualquer outra fraude. Mas existem os vazamentos, invasões e a venda de informação dos usuários, nós, sobre os quais não temos o menor controle. Não devemos publicar no mural do Facebook a foto do cartão de crédito e, depois, responder ao comentário pedindo o código de segurança com a informação correta, mas tinha quem o fizesse e depois ficasse em choque pelas compras aleatórias feitas por terceiros.

Quem somos e como nos encontrar (e como acessar nosso dinheiro) são informações sensíveis e não damos o devido valor a elas. Meu distanciamento do Instagram e o olhar cada vez mais crítico em relação às Big Techs me fez ver a profundidade disso. Existe um monte de informação que consideramos bobagem, mas estão alimentando uma máquina de nos esmagar. A mais nova feitiçaria maléfica digital da Meta, por exemplo (à escrita desta crônica), é registrar em tempo real onde você está para que seus amigos possam ver. Seus amigos, o algoritmo e o rastreio no plano de fundo do smartphone, claro, juntando cada passo para, no mínimo, te vender como receptáculo de publicidade.
O que bruxas, mensageiros, oficiais de justiça e escritores de distopia sempre souberam não está sendo ignorado pelas grandes corporações de tecnologia. É importante saber exatamente quem somos e onde estamos, rastreando nossos passos e intenções, para saber como melhor lucrar e como nos desviar daquilo que é relevante. Nessa esquina entre 1984 e Admirável Mundo Novo, vamos sendo entretidos com luzes piscantes e coloridas, distraídos daquilo que acontece na nossa cara, e nos é apresentado com mensagens ilusórias, que distorcem e corrompem seus significados e, ao invés de ficarmos atentos e preocupados, achamos divertido e aceitamos a ilusão de que temos controle e estamos mais conectados uns com os outros. Se isso não é a definição de uma magia de glamour, eu cegue. A gente só não tem o costume de olhar para ela com a visão da Tecnocracia.
Amor é ódio, guerra é paz e prisão é liberdade, já diria o Grande Irmão. Nessas, meu feitiço preferido também é um de glamour: seja míope, não me veja direito, não tenha muita certeza se sou homem ou mulher, mãe de dois ou uma solteirona solitária, se loira ou negra, politizada ou jovem mística good vibes only. Seu algoritmo confuso favorece minha curiosidade insaciável pelas informações que estão nas prateleiras que não são para mim e ainda me tornam de mais difícil digestão. Que seu olhar de infinitas câmeras tenha um glitch e me erre.

Este texto foi escrito no primeiro dia de retorno ao café. Quem está dizendo que é vício ou dependência é você, eu chamo de simbiose.
Eu esqueci de postar no pré-São João. Foi mal, galera!
Mas não escrevi uma linha no feriado, então que bom que, pelo menos, tem texto pra essa semana.
Eu acho a narração do Escafandro um pouco chata, mas os temas são fenomenais. O episódio Os bastidores da Vaza Jato, com o jornalista da Intercept que recebeu a bomba e publicou a matéria, é uma verdadeira aula de jornalismo investigativo.
Terminei de ler The Adversary (Erin M. Evans, Brimstone Angels #3 e The Sundering #3) e achei muito interessante! Uma mesa de RPG muito mais consistente e espertinha que a galera da última temporada de A Lenda de Vox Machina. Não que a animação seja de todo ruim, em geral eu gosto. Mas há críticas. Há muitas críticas. Eu estava xingando os jogadores do The Mighty Nein antes de concluir a outra, mas conseguiram descer ainda mais a barra.
Para mais textos e crônicas, estou escrevendo quinzenalmente no No Fluxo, boletim informativo da Casa Fluxo, falando de dança, corpo, processo criativo, feminismo e temas semelhantes.
Estarei, em breve, matraqueando em um podcast, ainda sem data de estreia, mas informo quando tiver.
Temos um Instagram, mas ele é apenas figurativo, só para dizer que o blog existe: @desloucada.blog
Tu Já Viu Isso? - canal dedicado a viagens no Brasil e América do Sul. @tjviuisso no YouTube e Instagram
Curadoria da Meia-Noite - boletim informativo da Galeria da Meia-Noite, projeto de escrita de Lucas Freitas, com resenhas de produções diversas voltadas ao terror.








