O pior tipo de intolerância é à lactose. Para o intolerante, no caso. Para o intolerado, acredito que os outros casos sejam bem piores. Mas, no caso da lactose, o intolerante é uma vítima de si mesmo.
Talvez não seja apenas de si mesmo. É claro, a decisão última de comer a pizza que é uma piscina de queijo, se afogar no bolo e brigadeiro da festinha infantil ou curar uma mágoa enchendo a cara de sorvete é do indivíduo. No entanto, comida é muito mais que calorias e agentes agressores disfarçados de deliciosidades. Comida é cultura, afeto e pertencimento.
Recentemente meu marido me mandou um vídeo de um blogueiro de turismo passeando no Irã e comendo todas as maravilhas que só existem lá. Eu fiquei fascinada, porque viagem sem turismo gastronômico não é uma viagem completa, e absolutamente entristecida, porque as chances daquilo tudo desaparecer são bem reais. O tal blogueiro viu as pessoas comprando uma espécie de “churros” gigante no meio da rua, feito com farinha, açúcar e mel, e decidiu comprar um para provar. Imediatamente fiquei interessada em provar a iguaria. Assim como me interessei pelo chá que ele provou logo em seguida. Para quem tem curiosidade sobre outros povos, culturas e países, a experiência deve ser fascinante! Eu fiquei tentadíssima, mesmo sabendo do horror que é o Irã para mulheres em geral e para qualquer pessoa nesse momento específico da História (ou qualquer outro que os Estados Unidos decida levar democracia e liberdade para lá ou qualquer outro lugar).
São sabores que conheço em separado, mas não juntos e na forma especial e única de preparar que os iranianos possuem. E sem um pingo de leite, um passeio gastronômico perfeitamente seguro para meu sistema digestivo. Não venha me dizer que não posso achar que tem um preparo especial especial sem ter provado: você já comeu acarajé na Bahia? E fora dela? É diferente, não é? Você confiaria em um acarajé feito por um norueguês ou um estadunidense? Pois é. Eu também não confiaria em um estadunidense ou israelense preparando o “churros” iraniano (que claramente eu não sei o nome).
Da mesma forma, olho de um jeito diferente para toda comida que generalizamos como árabe e por qualquer prato que Israel tente se fazer passar como sua após descobrir em um episódio do Prato Cheio que praticamente tudo é palestino. O povo e a cultura, apagados. A comida, pasteurizada e mantida, mas separada de sua história e suas raízes. Esse tipo de intolerância é um problema grave para os intolerados. Diante disso, a intolerância à lactose é fichinha.
Trazendo a pasteurização de volta para o leite e o assunto para mais perto de casa, esse alimento está intrinsecamente ligado à nossa cultura. Onde já se viu festinha de aniversário sem brigadeiro? Visita a Minas Gerais sem pão de queijo? Tente ir para a casa de alguém no interior da Paraíba e recusar um baião de dois porque esqueceu sua lactase em casa sem fazer desfeita. Eu te desafio.
Está cada vez mais comum crianças virem “de fábrica” com a dificuldade de digerir o açúcar do leite, mas quando eu era mais nova, isso era bem incomum (ou pouco pesquisado). Eu tenho várias teorias sobre as mudanças na forma como os alimentos são produzidos, na quantidade de hormônios, agrotóxicos, e bombas de antibióticos utilizadas, bem como no processamento disso tudo e como isso deve afetar a vida da gestante e de seu filho desde a fase embrionária. No entanto, como não sou uma pesquisadora da área, deixo essa investigação pro pessoal do Joio e o Trigo e do Ciência Suja. Talvez venha a ouvir em um de seus episódios sobre o agravamento da nossa relação com o leite de vaca algum dia.
O fato é que mamíferos não foram feitos para aguentar consumir leite a vida inteira. No caso dos humanos, a gente produz naturalmente a enzima capaz de digerir o leite (a lactase) até os oito ou dez anos. Depois disso, a fábrica fecha ou reduz muito sua produção e passamos o resto da vida nos virando com o que sobra. Quando a produção natural da lactase acaba, chega a temida, que transforma em transtorno qualquer ida a um restaurante.
Claro, a evolução já mostra as caras e temos hoje seres humanos adultos produtores da sua própria lactase, provida por mutações genéticas que impedem o fechamento dessa “indústria”. Indústria essa muito lucrativa (a do agronegócio e dos produtos derivados do leite, não nossa metáfora para a produção interna de lactase), afinal investe avidamente em pesquisa e propaganda para nos convencer de que leite é essencial para uma alimentação saudável e que só fica forte a criança que bebe leite.
Como tudo no capitalismo, o problema é a produção em excesso e a obrigatoriedade de estar constantemente escalando os lucros. Esse queijo falsiê que a gente vê em todo canto, por exemplo, e que é o mais lotado de lactose, vem do esforço de guerra dos Estados Unidos. O país subsidiou produtores de queijo para que os fizessem da forma mais rápida possível e em grande quantidade para enviar para as tropas que lutavam na Segunda Guerra Mundial. Quando acabou a guerra, não podiam abandonar essa indústria já tão acostumada com o lucro, então redirecionaram o consumo desse queijo para a população e o introduziram nos países latino-americanos que influenciavam no pós-guerra.
O grande problema, além da produção exagerada de um alimento que ficava guardada em depósitos até quase estragar e, então, era redirecionada para a camada mais carente da população estadunidense, é que esses queijos não davam tempo suficiente para as bactérias fazerem seu trabalho. Nem todo queijo com nome europeu vai ser seguro para consumo por intolerantes a lactose, mas quando o são (como o parmesão, o gorgonzola e o gouda), isso acontece justamente porque as bactérias utilizadas na fabricação consomem o açúcar do leite. Só que isso leva tempo, coisa que a indústria do lucro não tem.
Algo que aprendi é que praticamente todo país vai ter seu próprio pão e seu próprio queijo. Em lugares como o Brasil, mais de um tipo, inclusive. Duvide-o-dó que você vá encontrar um queijo coalho realmente bom fora do Nordeste, por exemplo. Assim como os queijos produzidos em Minas Gerais provavelmente são bem melhores quando consumidos lá. O pão é algo tão regional que não consigo mais encontrar em João Pessoa um tipo de pão que comi mês passado em Campina Grande, e que costumava ser comum em padarias por aqui antigamente.
Não dá, portanto, para culpar os Estados Unidos pela cultura do queijo em si. Essa, acho que temos que culpar os portugueses, mesmo. Ou os holandeses, talvez. Ainda que eu ache que tenha um dedinho estadunidense no fato de que tudo hoje em dia leva leite, soro de leite, leite reconstituído ou alguma outra variação das sobras do leite produzidas na indústria para tentar garantir o lucro máximo. Como o whey protein, por exemplo. E, do outro lado, cobrando mais caro por produtos estampados com o selo “sem lactose”. Até porque muitos deles não são feitos na ausência dos derivados de leite e sim com a lactase já embutida (mas nem sempre na proporção ideal para todos os corpos, o meu é um desses corpos que sofre).
Durante muitos meses, desde que descobri minha intolerância a lactose, tentei evitar. Passei a ter uma alimentação quase vegana. Em muitos aspectos, ela funcionou para mim. Mas o esforço para mantê-la é gigante. Hoje em dia é um pouco mais fácil, mas não deixa de ser complicado encontrar um lugar para comer fora que agrade a todos e tenha diversas opções de alimentação para os intolerantes e veganos. Quando tem, costuma ser um esforço para o bolso.
Acaba que a saída é cozinhar todas as suas refeições, assim você sabe o que vai no prato. Apesar do inegável talento culinário, essa não é minha atividade favorita e eu sou muito bem capaz de pular o almoço e fazer apenas duas refeições no dia para não ter que lidar com panelas. E fica de fora tudo aquilo que falei lá em cima: comidas afetivas, lanches prazerosos, apaziguamentos emocionais em forma de gordura (do leite, claro) e açúcar, geralmente carregados de chocolate. Outro item imprescindível para a qualidade de vida, mas que custa uma fortuna caso seja feito apenas de cacau e seus derivados e açúcar — sem leite. Bom, até o doce sabor chocolate é uma fortuna, o que esperar de um produto de maior qualidade?
Mas digamos que você seja uma pessoa controlada, comedida, responsável e capaz de se segurar e não se jogar de cabeça em um balde de sorvete. Mas tem alguma coisa na sua vida que precisa de remédios. Uma dor de cabeça que seja. A diferença não está se você vai tomar uma dipirona ou um ibuprofeno e sim se vai trocar a dor de cabeça pela dor de barriga, já que muitos analgésicos utilizam lactose na sua composição. Aí você toma um antidiarreico pra segurar a onda e — adivinha — não melhora nada, porque os mais comum também utilizam o mesmo composto. Anticoncepcionais e medicação para hipotireoidismo idem. Esses são piores, porque é necessário tomar todo dia. Olha a bagunça!
Claro que existem opções sem lactose. Resta ao intolerante lembrar de ler a bula e pesquisar antes de comprar a medicação. Além de informar a todos os médicos, perguntar se eles têm certeza, voltar ao consultório para trocar a receita, porque na verdade a certeza deles não era tão certa assim. E, por fim, pagar mais caro, pois as versões seguras são bem mais caras do que as perniciosas fontes de microdose lactosiana.
E, no final, o salário do lactointolerante é o mesmo. Tal qual mulheres possuem um custo de vida mais alto que o dos homens, esse tipo de intolerante que se lasca tem um custo de vida mais alto do que o dessas mutações ambulantes capazes de digerir todo tipo de lactose mequetrefe até o fim da vida. Algo precisa ser feito para equilibrar isso!
Assim como nós não escolhemos ter intolerância a um ingrediente essencial da maior parte das comidas que crescemos amando, os que as suportam até morrer de velhice aos cento e vinte anos sem nunca pagar o preço com dor, vexame ou horas no banheiro (ou tudo isso junto) também não escolheram nada, os deuses da sorte e da comilança apenas lhes sorriram.
Também não foram os lacto-tolerantes que fizeram (e fazem) grana com indústrias predatórias. Os beneficiados possuem chefs formados na Cordon Bleu preparando suas refeições macrobióticas ou o que seja, portanto é sobre eles que deveria recair a guilhotina. Ou, numa alternativa mais amigável, pesados impostos e a criminalização de se ter mais que uma certa quantia de dinheiro. Bilionário é um negócio terminantemente proibido daqui pra frente. Crime capital! Pena de morte! Por guilhotina, preferencialmente, por motivos históricos. (Acho que rodei, rodei e não saí do lugar na minha proposta…)
Enquanto a revolução não chega e bilionários não são extintos, podemos pensar numa solução que nos ajude a chegar lá. Por exemplo: o cidadão emitiu opiniões pró-guerra? É penalizado em 10% do salário, em prol de um auxílio-lactase para nós lactointolerantes. Continuou defendendo esse tipo de coisa? Mais cortes salariais (até um certo limite, não queremos ninguém morrendo de fome, quem quer isso é o bilionário, para que ele fique mais bilionário).
Na mesma toada, já podemos ir aplicando com os incel. Proferiu discurso redpill? Tome logo 20% de desconto eterno, em qualquer cargo que ocupar na vida, já que a diferença salarial entre homens e mulheres ocupando o mesmo cargo costuma ser essa. O montante vai para um fundo para mulheres sobreviventes de relacionamentos violentos. Reincidiu? Aí é crime, o processo é outro. Essa é outra das intolerâncias intoleráveis.
Recadíneo
O Recadíneo é que não tem recadíneo. Leiam o belo texto da newsletter da Casa Fluxo dessa semana. Obrigada.
Ah! Toma os vídeos de algumas das coisas citadas no texto!
Obrigada por vir até aqui! Vamos confiar que semana que vem terei mais um texto concluído! Nem que eu comece a te contar o que anda acontecendo nas mesas de RPG…





