Estou num extremo mau humor sem causas aparentes. Pode ser porque ontem, na minha primeira aula de poledance coreográfico em três anos, eu não peguei com perfeição um único giro, que era absolutamente novo para mim, e era o inicial da coreografia? Pode ser. Afinal, por que minha mente perfeccionista vai focar no fato de que consegui pegar todos os outros movimentos? Ou de que durante o treino, o tal do Juliet Spin até saiu? Não faz o menor sentido.
Pode ser também porque eu sonhei que meu marido me deixava no restaurante coreano que se recusava a servir minha comida, à qual eu já tinha pago, e escarnecia de mim enquanto ia fazer sozinho o passeio para o qual tínhamos comprado o ingresso para fazermos juntos? Claro que pode! E Inaceitável, sabe? Mesmo em sonho! Também tive o desprazer de encontrar com o pior dos meus ex-namorados, mas ele estava numa situação bem capenga e eu só fiz fechar a porta na cara dele e largá-lo no cubículo escuro em que ele habitava. Parecia um lugar adequado. Segui procurando meu marido com ajuda do atendente do restaurante que ficou no meu lado na querela. Mas não é no meu aliado que a cabeça foca.
Dentre todos os outros mínimos porquês justificáveis porém aparentemente inaceitáveis, pensei em ir tomar um banho de mar, afinal foi para isso que me mudei para tão perto da praia. O sol estava de rachar, o calor insuportável, a maré baixa... era só botar o biquíni, aceitar minha própria companhia no modo insuportável e ir. Já funcionou outras vezes. Aí me lembrei do relatório de balneabilidade dos mares da última semana, que apontou justamente meu trecho de praia (dentre outros) como impróprio. Mas que merda, sabe? (Muito provável que literalmente, inclusive.) O humor só piorou.
Ok, se não tem água do mar, que seja água de chuveiro mesmo. Sem ter ninguém em quem botar a culpa ou descarregar meu mau humor, meu cérebro começou uma discussão com minha filha imaginária, agora adolescente. Ela muda e adquire diferentes idades e papéis, desde que a última psicóloga “instalou” em mim essa ideia de uma criança interna. Às vezes ela sou eu mesma, às vezes, uma interlocutora. Na maior parte dos momentos, eu gosto das coisas que dividimos, ainda que isso não tenha despertado uma vontade de ser mãe na vida real. (Eu quero é ser avó, mas isso é uma outra história.)
Pois minha filha adolescente imaginária estava de castigo e queria porque queria ir para a festa da qual estava proibida. Uma amiga que eu nem conheço ligou para ela para insistir e pediu para falar comigo. Não teve oportunidade, peguei o telefone apenas para informá-la que ela não era advogada de apelação e aqui não é o tribunal. E que, agora, minha filha tinha perdido o telefone, fizesse ela o favor, já que era tão boa amiga, de informar às outras. Não ia ter tititi de madrugada nem updates em tempo real da festa. Desliguei a ligação e o aparelho, guardei-o embaixo do travesseiro. Perguntei pra minha filha imaginária se ela sabia porque estava de castigo (seria bom se me dissesse, inclusive, pois a eu que escreve não tem ideia). É bom revisar essas coisas. Dizer que não tem redução de pena (a pena nem era tão longa assim, mas uma festa pra um adolescente é muita coisa) e que era até bom ela não estar com o celular, não ia ficar sofrendo o FOMO de não estar no evento e ver todo mundo lá.
Nessa, agora tenho uma adolescente imaginária chorando em seu quarto imaginário por uma festa imaginária e uma paquera imaginária (que se for pra dar certo, vai falar com ela na aula imaginária de segunda-feira pra saber porque ela não foi, ambos vão criar laços xingando essa mãe cruel e, quem sabe, finalmente ficar no próximo fim de semana ou coisa assim) e continuo de mau humor. Pelo meus motivos misteriosos e pelo drama adolescente que se desenrola na minha cabeça sem pedir licença.

Contato com a natureza não rolou, o banho só fez aliviar o calor e deixar minha imaginação correr solta, criando uma historinha para me distrair. Claramente não funcionou. Vou ali entupir minha cara de chocolate, mesmo sem ser TPM ainda. Dizem que o magnésio do cacau ajuda. Mais alguma outra dica?
Recadíneos
Eu estou de férias!! Portanto não garanto atualização aqui até o Carnaval. Mas tenho umas coisas prontas, como esta, que se der na telha eu reviso e publico aqui. Do contrário, um beijo, bom Carnaval, bebam com moderação e usem camisinha!
Esta semana, ainda tem um texto meu para o boletim da Casa Fluxo, que sai amanhã! Então já segue lá e acompanha as produções e novidades. Prometo belos sapatos.
Essa crônica de hoje bem que caberia lá, mas como o foco não é bem a relação com a dança, e sim que às vezes o mau humor é inescapável e tudo é fruto da sua mente, trouxe para meu rol de reclamações habitual.
Faz pouco tempo que escrevi, mas nem lembrava mais dessa versão da minha filha imaginária. Ou que sofri tanto por conta de um giro que eu estava vendo pela primeira vez na vida (e sigo sem saber fazer #paz um dia a hora dele chega).
O tal giro com o qual estava (estou?) sofrendo:
Fui!



