— Está tudo certo com seu bebê, senhora. Todos os exames deram ótimos, a posição dele está perfeita para o tempo que ainda falta pro parto, tem uma coisinha só…
A futura mãe, que arrulhava de satisfação na cadeira oposta ao médico, ouvindo deliciada cada elogio, arregalou os olhos de repente. A ansiedade era visível em seu semblante. Ela havia feito tudo certo até ali. Todas as refeições, as vitaminas, os exercícios… até o ato de concepção foi realizado na posição determinada como ideal para a criação de um novo ser humano de valor. O pai e ela haviam feito todos os testes de rastreamento para garantir a compatibilidade entre eles. Tinham escolhido vias mais tradicionais de concepção ao invés da corriqueira inseminação artificial. Mas eles eram jovens tradicionais, afinal de contas. E estava tudo certo até aqui. Como assim “tem uma coisinha”?
O médico, experiente, já captava essas alterações de humor, mesmo quando contidas, e passara a apreciá-las, chegando a prolongar a tensão de propósito.
— O que é, doutor? — indagou a paciente em voz gentil e monocórdia, contendo sua aflição. Não havia de ser nada de mais. Nada para se desesperar. Ou seria?
— Não se preocupe, tem solução.
A mulher recostou-se na cadeira, num desmoronamento contido e educado, afagando o ventre sob o vestido de algodão egípcio, como que o protegendo do infortúnio enquanto o homem a sua frente abanava a mão num sinal de “relaxe”, fazendo o Patek Phillipe deslizar no pulso, e continuava:
— Acontece apenas que seu bebê tem uma marcação de lóbulo solto. A senhora entende como, na nossa sociedade, é muito difícil crescer dessa forma. Estamos sempre com fones tão apertados nos capacetes e é tão difícil viver lá fora sem eles, não é mesmo? Eu mesmo não gosto deles, mas fazer o quê, hoje é impossível… Fiz minha cirurgia para reduzir meu lóbulo há anos para me adaptar. Foi com um amigo de meu filho, um cirurgião impecável. Imagino que a senhora ou seu marido sejam cirurgiados?
— O meu marido. — A jovem mãe respondera, engolindo em seco. Era uma inadequação, claro, mas não imaginava que seria um problema para um recém-nascido. Os fones e capacetes eram maiores para crianças e ele ficaria apenas dentro de sua bolha até chegar a época de usá-los. Se bem que isso pode ter sido sua época. Ela lembra de ouvir os pais e avós reclamando do aparelho tal qual o médico agora fazia.
Já foi novidade usar isso, ela lembrou-se, e imaginou como seria um mundo em que eles não seriam necessários. Fora da Urbe, dizem, as pessoas não precisam disso. Lá dá para respirar sem precisar do filtro, parece. E não faz um barulho horrível fora dos prédios com tratamento de som, como faz aqui. Ela não sabia como as pessoas que não podiam comprar um capacete completo faziam para viver. Viviam menos, provavelmente. E capacete era um nome ridículo, aquela geringonça nem era para proteger a cabeça completa, só pra você conseguir respirar direito mesmo, e não ficar surdo. Mas os mais modernos tinham essa proteção pros olhos, né? E também eram mais leves e elegantes. Não importa, o apelido colou logo no lançamento, no país todo, e ficou.
Acontece que eles eram feitos de uma forma que comprimia os lóbulos de orelhas maiores ou descoladas da cabeça. Assim, foi-se tornando prática comum fazer a cirurgia para corrigir isso. O sonho era ter o lóbulo colado ao crânio e, de preferência, pequenininho. Chegava a ser requisito em certos aplicativos de relacionamentos e a ser propagandeado em sites de serviços sexuais. Definitivamente havia se tornado o novo padrão de beleza.
E ela, com seu lóbulo preso, pequeno e delicado, agora daria luz a um bebê de lóbulos grandes e soltos e teria que procurar logo um bom cirurgião para permitir que seu filho tivesse um ingresso tranquilo na vida em sociedade. Ou filha. Seria ainda pior, cicatrizes são piores para as meninas. O peso de anos à frente caía nos seus ombros em poucos segundos de reflexão, quando o médico a lembrou de uma solução mais moderna:
— A senhora sabe, desenvolveram um medicamento que pode resolver isso. Seu feto ainda não está totalmente desenvolvido, dá tempo de fazermos algumas aplicações e o lóbulo reduz e cola na orelha dentro do útero mesmo.
— Mas isso não é aquele da morte dos neurônios, doutor? Não vai causar problemas?
— Ah, não, não! Isso já é história antiga. Agora a gente já tem como fazer a análise e dar a dose exata que a criança precisa. Os efeitos colaterais ainda existem, claro, pode ser que ainda haja algum corte neuronal excessivo, mas no seu caso, acredito que podemos controlar tudo no laboratório.
— Que efeitos colaterais? — A mulher estava interessada, era a aceitação social de sua bênção, o futuro, o destino de seu filho e, portanto, também precisava levar em consideração os riscos. Já bastava o quanto tinha se arriscado com uma concepção natural e nessa história de aguardar para saber o sexo com a imagem do ultrassom.
— Bom, no caso mais extremo, ele pode acabar virando um Delta… mas numa família tão próspera quanto a sua, imagino que isso não vá acontecer. Basta vir para o acompanhamento, vamos garantir o controle de tudo.
— Um Delta, doutor?! Então é verdade?
— Olhe, não saia espalhando por aí, tá bem? Vou te contar por conta da amizade que tenho com o seu avô. Tenho certeza que a senhora vai honrar a relação das nossas famílias. Mas sim, é verdade. Na verdade, esse medicamento foi o mesmo usado para corrigir as falhas de formação cerebral na nossa sociedade. Os estudos provaram que as diferenças nos cérebros e nas formas de pensar eram causadas porque a quantidade errada de neurônios era cortada. Precisávamos cortar mais neurônios nas épocas certas, para manter tudo num padrão e garantir a harmonia e o funcionamento da nossa sociedade.
— É verdade — continuou ele — que no início houve mortes prematuras e formações deficitárias, mas só cognitivamente, e eles cresceram para se tornar tão pacíficos e moldáveis… Hoje isso não acontece mais. As mortes, quero dizer. Os Deltas, só acidentalmente. Quer dizer, tem umas clínicas que não são tão boas, mas são muito mais baratas, não tem como exigir qualidade impecável, não é mesmo?
A mulher ouvia com atenção. Algumas coisas ela já sabia, mas eram apenas rumores. Ela passava do choque ao interesse e de volta. Nada daquilo fazia parte da rede de informação à qual ela estava conectada. Até porque essa rede, ultimamente, só vinha dando informações sobre o design perfeito para o berçário, a alimentação adequada para uma amamentação ideal e os treinos para garantir que seria a mãe que seu filho precisaria, e essa era toda a informação que ela precisaria ter.

O médico continuava seu discurso, já meio esquecido da juventude de sua confidente, bem como de seu descolamento da realidade:
— E pensar que hoje a gente usa esse remédio porque o efeito colateral era diminuir as orelhas, quando começaram a ser usado em grávidas! E agora, o efeito colateral é a formação dos Deltas… Sabe, a gente nem ia dar esse nome. A gente… eu não fiz parte dessa pesquisa. Mas meu primo fez. Ele disse que queriam chamar de Admiráveis, mas ia parecer piada. E ninguém sabe mais quem foi Huxley, enterraram ele direitinho…
Era verdade. A jovem mãe, de olhos arregalados, não tinha ideia de quem era Huxley ou os Admiráveis. Seriam celebridades virtuais da época do médico? Uma banda, talvez? Não parecia muito adequado... Mas eles eram admiráveis, de verdade, os Deltas. Viviam com tão pouco e garantiam o sustento de tudo, sem reclamar. Também não pareciam precisar de filtros tão sofisticados… alguns nem usavam capacete! Os Deltas eram realmente perfeitos, mas onde estavam. Na base. Ela não queria a base para seu filho, queria o creme. Enquanto isso, o médico continuava:
— … isso de dizer que um é alfa ou outro é beta já estava na moda, sabe? Mas não era como é hoje. Aproveitaram a moda, chamaram de Delta e a coisa pegou. Continua sendo uma homenagem a Huxley, se você parar pra pensar. Mas e então, cirurgia ou tratamento? — o médico saiu de sua diatribe e lembrou-se de dar prosseguimento à consulta.
— O senhor tem certeza de que vai dar certo? Não vai ter morte cerebral nenhuma?
— Corte neuronal. Sim, claro, é perfeitamente seguro. Sem criação de Delta e sem cicatrizes que possam macular uma orelha perfeita. Apenas venha toda quinzena até ele completar dois anos. É ótimo, porque se o cérebro dele fosse fugir ao padrão, já estaremos corrigindo isso também, atentos à tudo.
Com um estremecimento diante da ideia de um filho defeituoso, ela se decidiu. Afinal, o que não faria pela felicidade de sua cria? Decidiu também que os próximos filhos seriam gerados mesmo em laboratório, ela pensava. De repente, a inseminação estava parecendo bem mais prática.
— Estarei aqui, doutor. Eu tomo as pílulas em casa ou é uma injeção em consultório?
— O primeiro tratamento é uma injeção, a enfermeira vai preparar a sala e os comprimidos para você tomar nos próximos meses. Me acompanhe até lá, querida, enquanto te conto sobre uma análise que meu filho está fazendo. Ela é muito interessante, mas é sobre uma relação hormonal, sabe? — E, virando-se para a enfermeira, recomendou: — Depois de arrumar a sala, lembre à secretária que esta consulta vai para o Clube.
A jovem mãe acenou positivamente a cabeça, com um discreto sorriso para a funcionária e saiu junto ao amigo de seu avô, o médico de confiança da família, fazendo os saltos baixos de seu Ferragamo ecoarem no piso marmóreo que levava de uma sala a outra, satisfeita pelo tratamento adequado à sua estirpe. Enfim, viria o filho perfeito, de lóbulos perfeitos e cérebro perfeito, para se adequar às exigências deste novo mundo e manter-se na uniformidade necessária para a continuidade de sua família tão bela.


