Soraya havia deixado seu batom no porta-luvas de Cláudio na esperança de ser encontrado. Eles saíram do escritório para almoçar e passar a tarde juntos e, enquanto conversavam, ela retocou os lábios e deslizou a maquiagem para o porta objetos distraidamente. Esperava que a esposa o encontrasse e fizesse um escândalo, quem sabe acabasse logo esse casamento.
Se não leu ainda, leia este conto (gostaria de dizer antes, mas não estou aqui para obrigar ninguém a nada):
Vamos continuar!
Cláudio raramente falava da esposa com ela, mas se ele havia se envolvido, é porque algo não estava bem no casamento. Talvez ela não desse atenção a ele. Talvez fosse uma megera pelancuda e sem graça e, por isso, ele tivesse se interessado pela colega mais jovem, bonita e inteligente. Os dois haviam trabalhado juntos em um caso, era o primeiro dela na firma, e ele não havia apenas guiado a recém-contratada nos trâmites peculiares da empresa, como também a havia deixado à vontade. Algo havia clicado entre eles, conversavam sobre vários assuntos e riam bastante. Rolou química, como dizem por aí.
Ao vencer seu primeiro processo neste escritório, Cláudio a levara para tomar uma cervejinha e comemorar, antes de irem para casa. A noite esticou e, embalados mais pelos risos que pelo álcool, a química virou física. Se beijaram ali mesmo e seguiram para um motel. Bem que sua colega de apartamento tinha avisado quando ela contou do advogado que a treinava na nova firma:
— Os engraçadinhos são os piores! De risadinha em risadinha, quando você vê, já arriaram sua calcinha.
A frase divertida e inconsequente tornara-se preditiva, uma vez que a roupa íntima de Soraya encontrava-se distribuída pelo quarto quando ela pensou na amiga. Esse engraçadinho era terrível, não bastava ser bonito e divertido, beijava bem e tinha pegada. Acabara de ser promovido e nada indicava que ia ficar careca. Um quarentão de respeito! Seu único defeito era ser casado… Era mais do que normal imaginar que a esposa fosse uma mocreia. Se não de cara, provavelmente de espírito.
O caso entre os dois já durava alguns meses. Cláudio jamais falara em largar a esposa. Soraya tampouco pedira. Mas, em sua imaginação, ela se via como muito melhor do que, qual era mesmo o nome dela? Marina. Marina Narina Cara de Cacimba. A mulher riu sozinha com sua associação, como se tivesse cinco anos. Estava claramente apaixonada e esperava tomar o lugar de Marina Mocreia, passava horas fantasiando como seria bela a união dos dois.
Naquela segunda havia sido o primeiro almoço dos dois juntos após a comemoração oficial da promoção. Não havia tempo para se aproveitarem pela tarde, Soraya tinha prazos que não podia ignorar e Cláudio estava animado para mostrar aos demais sócios que a decisão deles tinha sido acertada. Ficaram de conversar ao fim da tarde quando tirariam um tempo para si. Ele não iria voltar direto para o escritório, parece que tinha que passar na escola da filha, mas a deixaria no estacionamento subterrâneo do prédio em que trabalhavam.
Soraya entrou na CR-V e decepcionou-se ao encontrar o batom onde deixara, no porta-luvas. Pelo bom humor inabalável de Cláudio, o fim de semana foi tranquilo. A esposa não encontrou a surpresinha. Ou, se encontrou, deve ter assumido que o batom era de uma das filhas. Suspirou momentaneamente resignada e abriu a cápsula do MAC Rebel para retocar os lábios. Quando foi fechar, percebeu um papelzinho branco preso na tampa. O coração disparou. Ela olhou para Cláudio, que cantarolava a música do rádio e prestava atenção no trânsito. Ele não percebera nada. Ou, se percebeu, se fez de doido. Decidiu não olhar o conteúdo naquele momento e guardou o batom na bolsa.
Assim que chegou ao escritório, Soraya guardou suas coisas, botou o batom e o celular no bolso do blazer e seguiu para a sala de arquivo. Raramente alguém circulava por ali, já que a maior parte do acervo fora digitalizado. Todos os seus processos eram digitais, mas sempre poderia dizer que estava fazendo uma consulta. Queria privacidade para ler seja lá o que aquela nota dissesse. A ansiedade pulsava em seu corpo. Não conhecia a mulher, ainda nem a tinha visto. Foi quando se tocou: há semanas comia um casado e fantasiava em ser sua esposa, mas não tinha nem procurado saber quem era a Fiel nas redes sociais. E todo mundo tinha rede social hoje em dia! Agora, não sabia se via o bilhete ou o Instagram primeiro. Ela queria ver que xingamentos leria, se encontraria uma súplica ao invés disso, ou conhecer a cara da autora primeiro?
Decidiu-se pelo bilhete. Abriu o batom e, com ajuda de um grampo de cabelo, tirou o papel meio esmagado pela tampa e levemente manchado de roxo. Abriu e encontrou os dizeres: “Fala, Amante! Aqui é a Fiel. Me add”, seguido de um número de telefone. Não soube bem o que pensar. Não era o que esperava. Confusa, Soraya não conseguia se decidir se o texto era divertido ou ameaçador. Será que ela esperava que dessem juntas uma lição no Infiel? Ou queria esculachá-la cara a cara? Se essa mulher queria uma briga, iria ter uma briga!
Belicosa, a jovem advogada abriu o Instagram, disposta a conhecer bem sua rival, ou ao menos sua cara, antes de mandar qualquer mensagem. Os algoritmos da rede social providenciaram: o primeiro post era justamente do escritório de advocacia. Um carrossel de duas fotos anunciava a promoção do mais novo sócio. Uma foto de Cláudio junto ao resto da chefia, no ambiente da firma, estampava a capa. A segunda imagem continha uma foto tirada em um restaurante. A nota datava que o evento tinha acontecido na sexta-feira. Soraya conhecia cada um dos homens ali e uma das esposas, que comandava o RH do escritório. Assumiu que a mulher sorridente de cabelos com luzes californianas era a tal da Marina.
O coração de Soraya afundou no peito. Marina não era uma mocreia horrorosa. Pelo contrário. Não era jovem, devia estar para lá dos quarenta também. Não era muito magra, pelo menos, mas também não podia ser chamada de gorda. Preenchia muito bem o vestido preto de saia lápis, seu colo sustentava a cascata de pequenas pérolas em fios dourados com elegância e ela se apoiava em Cláudio com intimidade. Parecia, talvez, um pouco bêbada? O sorriso definitivamente era autêntico. Pela foto, parecia que estavam se divertindo.
Soraya clicou no perfil de Cláudio. Um carrossel também estampava a primeira posição, a postagem mais recente. A mesma foto do restaurante, a mesma foto do escritório e, por fim, a foto dele com Marina. Ambos felizes. Ambos rindo! Que ousadia! A legenda era uma agradecimento aos envolvidos nessa nova etapa da vida, com um parágrafo dedicado à esposa e filhas. O arroba com o nome de usuário de Marina se destacava em azul, um convite ao clique.
Era irresistível. Soraya embarcou numa investigação digital. Abriu o perfil de Marina, viu suas fotos, viu as fotos que indicavam a presença das filhas. Nunca um rosto das crianças ou uma farda escolar. Orientação de Cláudio, ela apostava. Inteligente, ainda assim. Contra a vontade, Soraya se viu admirando que Marina resistia à tentação de expor as filhas online. Uma foto com cinco pares de pé aqui, seguidas de paisagens de alguma viagem e fotos de casal. Outra foto com mãos femininas segurando quatro sorvetes ali, mas a maioria das fotos tinha a ver com o trabalho dela. A mulher era médica! Cardiologista! Tinha a própria clínica! A clínica, obviamente, tinha seu próprio perfil na rede social, o qual a jovem também chafurdou. Marina não postava tanto, Cláudio postava menos ainda, mas a clínica era bem ativa. Devia ter uma equipe por trás, assim como o escritório também tinha.
A inveja e o desânimo tomaram conta da advogada em início de carreira. A outra era bonita, tinha uma família de comercial de margarina e uma clínica que carregava seu sobrenome. Talvez toda a prosperidade que Soraya atribuíra a Cláudio, fosse, na verdade, daquela mulher. Ela tinha tudo, não precisava do marido também. Apoiada na máquina de xerox que reinava na pequena sala, abriu a agenda e anotou o número do bilhete, salvando como Mocreia Fiel. Deixou o despeito falar mais alto e enviou a mensagem, carregada de rancor:
“Fala Fiel. Aqui é a Amante. O que você quer comigo?”
Recadíneos
Feliz ano novo! Segue a continuação daquele outro conto que larguei aqui no início de dezembro. Foram escritos juntos, mas nada que saiu depois em torno dessa história prestou. Temos, portanto, um díptico de múltiplos finais abertos. E eu jogo para você: o que acha que aconteceu nesse encontro digital?
Pela primeira vez fiquei insatisfeita com a imagem que ilustra um post por aqui. Queria a foto de uma mulher de tailleur e saia lápis, encostada na máquina de xerox e com cores um tanto sombrias, mas não encontrei nenhuma imagem de stock que pudesse editar para ficar como eu queria nem tive a oportunidade de fazer a foto eu mesma, então vamos relegar a obras de artistas renomados (apesar de que acho que esta pintura pode refletir a relação de Cláudio tanto com Marina quanto com Soraya).
Indicações
Terminei o ano lendo Rose Madder (Stephen King) e recomendo demais! Não sou grande fã de terror porque geralmente não me pega, mas neste o inimigo é real até demais, afinal trata-se da história de uma mulher que acorda para a vida e foge de um casamento torturante onde era consistentemente abusada pelo marido. Nem todo abusador é um psicopata (e vice-versa), mas este é — e dos piores. Enquanto Rosie refaz sua vida numa cidade distante, Norman usa seus instintos e talentos de policial para persegui-la e encontrá-la, com uma dose de sobrenatural, descida ao inconsciente e loucura. A gente é presenteado com vislumbres tanto de uma mente em recuperação quanto de outra decaindo em loucura.
Comecei o ano engatando uma ficção científica que não tem absolutamente nada a ver com King e sua âncora na realidade. Em A Mão Esquerda da Escuridão (Ursula K. Le Guin), acompanhamos um enviado de uma espécie de ONU dos planetas com vida humana ou similar ao que ele chama de Planeta Inverno, no qual 10ºC parece ser a temperatura média. Os humanos deste lugar, no entanto, apresentam uma característica única, não encontrada em nenhum dos outros 50 e tantos planetas filiados: eles são ambissexuais. Não existe homem e mulher, macho e fêmea. Os humanos aqui são assexuais e assexuados até que chega o período do mês chamado kemmer (que eu traduzo vulgarmente para “cio”, mas o livro explica o kemmer em detalhes em determinado momento), no qual se manifestam as características sexuais ora de um sexo, ora de outro, e o desejo de estar com outros no mesmo estado de graça hormonal. Ninguém escolhe que sexo vai se manifestar, seja em si, seja no(s) parceiro(s). Existe assassinato, crueldade, violência, mas não existe guerra. Também não existe estupro, casamento formal ou qualquer forma de escravidão. Ainda estou lendo, não cheguei nem na metade, mas já deixo a recomendação. A autora foi proibida em países como a Rússia por conta de pensamentos revolucionários como esse: em 1969 ela já estava considerando como seria uma vida com a extinção da separação e subjugação a partir do gênero.




continuaaaaaa