Diferente dos dias da semana na maior parte dos outros idiomas ocidentais, em português seus nomes não homenageiam corpos celestes, e isso tudo porque esses nomes vinham, na verdade, da relação com os deuses de outras religiões. O inglês, por exemplo, se alterou muito em costumes e idioma com as invasões nórdicas, fazendo com que rolasse um remix de divindades. Assim, temos palavras como son para filho e Friday para o dia de celebrar Freya, deusa nórdica do amor, da fertilidade e da guerra, que comandava Valquírias a partir de sua carruagem puxada por gatos e tinha o próprio salão no Valhalla, disputando guerreiros heroicos com seu esposo Odin.
É interessante notar como a energia dos dias/deuses são parecidas em espanhol, inglês e francês:
Lunes/Monday/Lundi - dia da lua (Luna/Moon) em todos eles. Ninguém deveria trabalhar em tal dia, já que a Lua, na nossa simbologia, é conectada a sentimentos e ao amor. É hora de produzir assunto para registrar no diário mais tarde, de ter contato com rios, lagos, cachoeiras e outros corpos d’água também conectados ao mundo íntimo, sentimental, subconsciente. Passamos milênios construindo símbolos e narrativas para nos enfurnarmos em uma rotina corporativa assim, desde já? Dia da Lua era pra ser dia de amorzinho e lidar com emoções.
Martes/Tuesday/Mardi - dia de Marte para os idiomas de origem latina e de Tyr, para nórdicos e germânicos, ambos deuses da guerra e do combate. Na minha opinião, a semana deveria começar aqui, não no Dia da Lua. Existe todo o movimento e ímpeto desses deuses impulsionando a resolução de situações e conflitos (ou escalando o barraco — me chama que eu chego com a pipoca) favorecendo que este seja o primeiro dia útil.
Miércoles/Wednesday/Mercredi - aqui a coisa varia um pouco, já que em espanhol e francês é o dia de Mercúrio e, em inglês, de Odin. Odin compartilha com Júpiter, o deus do próximo dia, a ideia de ser lido como líder dos deuses¹ e até mesmo uma ideia de justiça. Já Mercúrio é o deus mensageiro e patrono de comerciantes, viajantes, ladrões e trapaceiros. Deus da sorte, da eloquência e da astúcia, consigo vê-lo tranquilamente num tribunal junto às outras duas divindades citadas, mas este seria, claramente, o dia do comércio e das trocas. E de abrir o olho, afinal todo mundo acha que que trouxa é apenas o outro.
Jueves/Thursday/Jeudi - enquanto idiomas latinos celebram Júpiter, o inglês tá pegado com o deus do trovão. Bem, Júpiter é também o deus do trovão para romanos, então seguimos em casa. Talvez esse seja o dia de decisões e finalizações. Hora de bater martelos e preparar-se para os próximos dias.
Viernes/Friday/Vendredi - aqui acabou a semana, porque não é possível que a gente vá honrar as deusas do amor, beleza, fertilidade e guerra (não esqueçamos que toda deusa da fertilidade era também uma deusa da guerra, seguindo a tradição de Innana, e que as culturas posteriores promoveram esse apagamento) com trabalho. A gente tem que honrar com banho premium, encontro com as amigas e amores, fortalecimento de laços, de autoestima, fazer algo pela gente mesma, sabe?
Sábado/Saturday/Samedi - nesse caso, todos vêm do latim. Quer dizer, não vem não, porque sábado vem do hebraico Sabbath e quer dizer dia do descanso. Mas, no latim, que é o caso do inglês e do francês (a depender da referência), é o Dia de Saturno, o deus romano do tempo, e seria um dia de reflexões. Portanto, é aquele dia de ficar na sua, escrever no seu diário… talvez até fazer um planejamento para o próximo dia de Tyr/Marte.
Domingo/Sunday/Dimanche - para idiomas românicos, Dia do Senhor, ou seja, um dia dedicado ao deus cristão. Dia de ir para a igreja, ouvir a missa e descansar. Prefiro os germânicos, no caso, que mantiveram o Dia do Sol, um corpo celeste absolutamente essencial para a vida na Terra e de existência inequívoca, portanto justamente deificado pela maioria das religiões de que já ouvi falar, e um claro dia de ir para a praia, cuidar do jardim, repor a vitamina D. O Sol não se importa com honrarias, mas nossa cabecinha sim, então vamos festejá-lo.

Tradicionalmente, na maior parte dos países europeus durante a Idade Média, o domingo era também um dia de feira. Eu não considero que montar uma barraquinha e vender seus produtos seja descanso, mas as cidades não eram o que são hoje e boa parte da população morava espalhada trabalhando a terra. Domingo era o dia de ir ao vilarejo assistir à missa, ao julgamento, a execuções de sentenças, trocar itens com outros produtores e talvez tomar uma (ou dez) na taverna, antes de viajar (a pé) de volta pra casa e seguir mais uma semana até o próximo grande encontro no dia mais cheio de eventos de todos.
Mas, no século VI, um bispo de Braga achou que não dava para continuar isso de chamar os dias da semana por nomes de “demônios pagãos”, sendo que eles tinham sido criados pelo deus dele. Muito louco isso, afinal, a semana de sete dias nasceu, na verdade, na Babilônia, muitos séculos antes do cristianismo considerar existir, e levava nomes de outros “demônios”. Curiosamente, a energia era parecida: a sexta, por exemplo, era de Ishtar, que carrega significados semelhantes aos de Freya e Vênus.
Para esse senhor, isso não estava correto! Especialmente na Semana Santa, que era toda dedicada à morte como bandido do revolucionário judeu Yeshua por parte do Estado, com apoio dos judeus da vertente conservadora, e sua ressurreição dali a alguns dias. Essa coisa toda de revolucionário, tretas políticas, insatisfação com o sistema foi deixada de lado. É claro. Portanto, como seria uma semana toda de folga (”folga”) e missa, ele adotou novos termos para dignificar os dias santos e renomeou-os usando a palavra “feria”, que significava dia livre ou feriado.
Assim, Portugal passou a ter a Feria Secunda, Feria Tertia, Feria Quarta, Feria Quinta e Feria Sexta para esta semana especial, em que ninguém trabalharia em atividades mundanas e louvaria o processo de tortura, morte e ressurreição de uma de suas divindades. Com o tempo, os novos nomes foram ocupando os dias denominados anteriormente por divindades pagãs nas semanas não-santas também. O que é um absurdo, porque não tem feria nenhuma ao longo da semana. Preferia ter um dia de Marte, obrigada. Parece mais honesto e mais sincero.

Quando minha mãe era criança, no século passado, a semana inteira ainda era feriado. Nas rádios, apenas música clássica. Nas conversas, apenas papo de pecado. Ela morria de medo da semana santa. Quando eu era criança, também no século passado, a quinta-feira ainda era santa, mas por muito pouco tempo. Depois deixou de ser. Não me importei muito até chegar ao ensino médio. Aí fiquei bem chateada. A coisa boa da religião vigente é justamente a pluralidade e diversidade de feriados (e do vinho, mas vinho tem em diversas religiões mais divertidas também) e saem cortando, sem dar nada em troca?
Desde o início da década, é prática comum do governo estadual dar a quinta-feira como ponto facultativo nesse feriado. O que eu acho muito justo e deveria ser imitado por estados vizinhos, empresas privadas e tudo o mais. Nada tem um impacto tão positivo na produtividade quanto a felicidade e satisfação do trabalhador. A maior parte de nós não sabe como é ter uma semana inteira de folga, acha que o feriado é um dia só, ganhar outro diazinho de lambuja opera milagres nos corações cansados mais empedernidos. Veja como é barato! E não me venha com “era para ser um dia santo”, porque bem sabemos que o deus dos poderosos é o Capital e a reza é acumular dinheiro até ser o próximo a ter um trilhão para chamar de seu. Se isso deixar parte da população miserável e acreditando que apenas intercedência divina resolveria, ótimo, está tudo indo de acordo com o plano. Mas se você quer rezar, reze. Num contexto individual, faz até bem. Até eu vou acender uma velinha.
Pelas minhas pesquisas, a prática estadual tinha mais de uma década. Quando, este ano, o governador resolveu que não haveria ponto facultativo, os portais de notícias todos trataram como quebra de uma tradição logo nas manchetes. E tudo porque será seu último dia de governo, a data que irá renunciar ao cargo para concorrer ao Senado e tentar garantir mais um cargo político para mais um Lins.
Talvez você não soubesse que o atual governador carrega um sobrenome de influência tradicional na Paraíba, ligado à aristocracia, a coronéis e grandes proprietários de terras, mas esta é uma reclamação por um dia de descanso ao qual eu nem teria direito, de toda forma, não um resgate da história política regional.
O que achei engraçado é que no fim das contas o governo estadual não concedeu o ponto facultativo, mas as diversas prefeituras (inclusive a de João Pessoa), tribunais, câmaras e universidades, sim. Quem trabalha diretamente para o governo estadual, a essas horas, pode estar pensando que a folga foi não-concedida por vaidade, para garantir holofotes para a passagem do bastão para o vice. Coisas que muitos não veem como um problema, mas até onde eu sei, o deus católico sim. E esse é um deus que castiga.
Recadíneos
Nem ia ter texto essa semana, porque eu estava odiando tudo que fazia ou escrevia e não estava concluindo nada. Mas aí aconteceram essas coisas que me deixaram pensativa… e penso melhor escrevendo. Aí, em meio a cólicas e dores horripilantes e rios de sangue, eu descobri que era só TPM. “Só”…
Se você está lendo isso, é porque as 48h iniciais de caos menstrual já passaram e sou capaz de colocar alguma coisa no mundo. Se chegou por aqui a pouco tempo, tenho uma outras crônicas sobre o assunto:
Rodei, rodei e acabei voltando a publicar na quinta, no fim das contas.
E nem seria esse o texto dessa semana, mas acordei com o hiperfoco em como os dias da semana têm nome diferentão apenas em português e a história tem tudo a ver com a semana santa. Nos países orientais é um pouco diferente. Em chinês, os dias são simplesmente numerados (primeiro dia, segundo dia etc., até o sétimo). Em japonês, honram elementos diversos, como água e ar, além de também terem o dia do sol e da lua (domingo e segunda, para nós).
Coisas que li/vi:
Terminei Alchemised (SenLinYu) e amey! É um romance sombrio em três partes, que não faz parte de uma trilogia, e que parece que está cotado para virar filme. Ainda bem que eu descobri que é baseado em uma fanfic de Harry Potter (mais especificamente no casal ficcional Hermione e Draco) só agora, senão eu não leria. Achei interessante, no entanto, que tenha partido de ume autore não-binárie e espero que elu lucre muito mais que a autora transfóbica do menino bruxo. Eu morria de amores pela franquia antigamente, mas esse tempo já passou. Alchemised é incrível, SenLinYu conseguiu fugir de várias coisas potterísticas e recomendo a leitura.
O tema da semana passada foi pesado, mas o diálogo não parou ali. Lucas Freitas explorou o tema também em sua análise de obras de terror que abordam o mesmo assunto, além de ter deixado uma extensa lista de leitura: O papel de parede amarelo na cabana vermelha
Estou assistindo duas séries bem interessantes, ambas na Netflix:
Pessoa de Interesse é um thriller investigativo, do tipo que tem uma investigação diferente por semana, que vai tratar de Inteligência Artificial bem antes de termos isso na vida real. Além de ter explosões, tiro, porrada e bomba. São 5 temporadas.
Por Você é um CDrama, uma dramatização chinesa que vai contar a história de uma açougueira que resgata um marquês semimorto perto de sua vila. Ela é fortona e quebra vários estereótipos do que se espera da mocinha da história. Ele precisa esconder sua identidade e encanta a todos por ser muito lindinho. É um romance fofinho e engraçado que se passa na China pré-unificação. São 40 episódios.
Se você se interessa por ficção histórica dessa época, pode curtir o anime Kingdom (na Crunchyroll), que vai contar a história da unificação chinesa com aulas de estratégia e uma boa dose de fantasia (aka cavalos que derrapam feito motos). Personagens e cenas memoráveis, mas a qualidade da animação é sofrível até a segunda temporada. A partir daí, melhora exponencialmente. São 6 temporadas, a próxima deve sair no final de 2026.
Eu perdi o link do vídeo que falava sobre o uniforme minúsculo de diversas atletas mulheres e gerou o post da semana passada, mas assim que publiquei o texto, este chegou às minhas mãos:
No mais, se alguém tiver por aí revistas de surf, astronomia, astrofotografia, turismo ou outras com imagens belas e/ou doidas e quiser doar, estou aceitando. Bom feriado, com dias santos ou profanos para todos, como preferirem!



